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Filme de Bill Gates

Lauro Oliveira Lima (02/10/2010)

Escola não se escolhe por loteria

Artigo publicado em 26/08/2010 no jornal O GLOBO

THOMAS L. FRIEDMAN

Enquanto Washington se consome sobre se o presidente Barack Obama é secretamente um muçulmano, ou nascido no exterior, possivelmente no espaço sideral, gostaria de falar sobre algumas boas notícias.

Mas, para vê-las, você deverá olhar os Estados Unidos de baixo para cima, não de cima para baixo (Washington).

E o que você verá lá de baixo é um movimento agitando o país na área da educação. Da explosão das novas escolas terceirizadas (que continuam a receber verbas públicas, mas também doações privadas) ao novo contrato de trabalho do sindicato dos professores de escolas públicas de Washington.

Este recompensa abundantemente os professores que fazem os alunos progredirem rapidamente e afasta os que não conseguem. Com isso, os americanos finalmente estão enfrentando com seriedade a crise educacional. Outra possibilidade de tomar conhecimento da mudança é assistir, a partir de 24 de setembro, ao documentário "Waiting for Superman" (Esperando o SuperHomem). Você saberá do que estou falando.

Dirigido por Davis Guggenheim, que também dirigiu "An Inconvenient Truth" ("Uma verdade inconveniente"), de Al Gore, o novo documentário tira seu título de uma entrevista de Geoffrey Canada, fundador da Harlem's Children Zone. HCZ usou uma estratégia abrangente, incluindo uma creche para bebês, programas de serviço social e jornadas mais longas em suas escolas terceirizadas para criar uma nova estrada para um dos bairros mais problemáticos de Nova York.

A tese de Canada é que não será com um Super-Homem ou uma superteoria que consertaremos nossas escolas.

Mas é com super-homens e supermulheres num esforço para juntar o que sabemos que funciona: professores bem treinados trabalhando com os melhores métodos sob a orientação dos melhores diretores e com o apoio de pais mais participantes.

"Um dos dias mais tristes da minha vida foi quando minha mãe contou-me que o Super-Homem não existia", diz Canada no filme. "Lia revistas em quadrinhos e as amava porque, mesmo nas profundezas do gueto, você pensava: ele está vindo, só não sei quando, porque ele sempre aparece e salva todas as pessoas boas." Quando estava na quarta ou quinta série, Canada perguntou: "Mãe, você acha que o Super-Homem é real?", e ela disse a verdade: "O Super-Homem não é real." "Não? O que você quer dizer?" "Não, ele não é real." "Ela pensou que eu chorava por algum motivo parecido com a decepção diante da inexistência de Papai Noel. Mas eu chorava porque não havia mais ninguém chegando com poderes para salvar-nos." "Esperando o SuperHomem" segue cinco crianças e seus pais, que aspiram a obter uma educação pública decente, mas têm que entrar numa espécie de loteria para pôr a filha numa boa escola terceirizada, já que as de sua vizinhança estavam miseravelmente falidas.

Guggenheim dá partida no filme explicando que ele era a favor de mandar as crianças para as escolas públicas de seu bairro até que "tive de escolher uma escola para meus próprios filhos e a realidade se instalou. Meus sentimentos sobre educação pública não importavam tanto quanto meu medo de mandar as crianças para uma escola falida. Então, a cada manhã, traindo as ideias que tive ao longo da vida, eu passo diante de três escolas públicas ao levar meus filhos para uma privada. Mas tenho sorte. Tenho escolha. Outras famílias penduram sua sorte num computador que gera números em sequência aleatória, num globo de bingo que deixa cair uma bolinha numerada ou na mão que tira um cartão numerado de uma caixa.

Porque, quando há uma ótima escola pública, não há espaço suficiente e colocamos nossos filhos e seu futuro nas mãos da sorte".

É intolerável que, nos EUA, hoje, um globo de bingo determine o futuro educacional de uma criança quando há muitas escolas que funcionam, ainda mais, que estão melhorando. O filme é sobre as pessoas que estão tentando mudar isto. A tese do documentário é que, por tempo demais, o sistema educacional público foi construído para servir a adultos, não a crianças.

Por tempo demais, pagamos mal e desvalorizamos nossos professores, compensando-os com bônus sindicais.

Por décadas, essas vantagens se acumularam a ponto de bloquear reformas em distritos demais. Os melhores estão agora promovendo reformas, e os piores estão enfrentando o desafio das escolas terceirizadas.

Embora o filme afirme que a chave para o crescimento de um estudante é pôr um grande professor em cada sala de aula, seja crítico dos sindicatos de professores e apoie as terceirizadas, ele coloca diante de todos os adultos que dirigem nossas escolas - professores, líderes sindicais, diretores, pais, conselhos escolares, fundadores de terceirizadas, políticos - a seguinte questão: vocês estão pondo as crianças e sua educação em primeiro lugar? Porque sabemos o que funciona, e não é uma cura milagrosa. É a atitude decidida dos Geoffrey Canadas; é a seriedade dos criadores da escola KIPP (Knowledge is Power Program, ou seja, Programa Conhecimento é Poder); é a atitude "lidere, siga ou saia do caminho" dos responsáveis educacionais de Washington e Nova York, Michelle Rhee e Joel Klein.

E o heroísmo silencioso de milhões de professores de escolas públicas e terceirizadas e dos pais que põem seus filhos em primeiro lugar ao implementar as melhores ideias, e ao fazê-lo tornam suas escolas um pouco melhores a cada dia - de modo que nenhum americano tenha de brincar de bingo da vida com seus filhos ou rezar para ser salvo pelo Super-Homem.

THOMAS L. FRIEDMAN é jornalista.




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